Uma residência artística que investiga as varandas convertidas em jardins da Urbanização das Parretas, em Braga, enquanto atos de resistência silenciosa contra a dureza do betão e a homogeneização do espaço urbano.

Tipologia do Projeto
#artístico #residência artística
categoriaS
#vídeo #som #investigação #território #comunidade
Encomenda
Forma da Vizinhança
CURADORIA
Space Transcribers
APOIO
Braga 25 Capital Portuguesa da Cultura
local
Instalação "Sala de Condomínio", escadarias das Parretas, Braga
DURAÇÃO
11 — 21 de setembro 2025
EQUIPA
Alexandre Delmar e Maria Ruivo (curta-metragem),
Fernanda Botelho (caminhada etnobotânica)
AGRADECIMENTOS
Daniel Pereira e Fernando Pereira, Família Silva (Gabriel, Assunção e Gabriela), Ilídio Silva, Anabela Silva, Deolinda Graça, Marta Pombeiro e Marta Silva, Associação de Moradores das Parretas.
Contexto do projeto
O projeto Pequenos Paraísos nasce da residência artística realizada pela Recoletora na Urbanização das Parretas, em setembro de 2025, no âmbito do festival de arte e arquitectura "Forma da Vizinhança", com curadoria dos Space Transcribers e inserido no programa da Braga 25 — Capital Portuguesa da Cultura.
O projeto apresentou-se à comunidade no dia 21 de setembro sob a forma de uma curta metragem, que foi projetada à noite nas paredes da “Sala de Condomínio”, ativando esta instalação desenhada pelo arquiteto Nuno Melo Sousa e tirando partido da escadaria como um anfiteatro ao ar livre.
No mesmo dia, de manhã, A Recoletora convidou a herbalista Fernanda Botelho para orientar uma caminhada etnobotânica pelos jardins públicos da urbanização das Parretas, num percurso definido pelas varandas-jardins, mas que se focou no chão do espaço comum, onde convivem ervas “daninhas”, plantas ornamentais e árvores de grande porte. Nesta aula em movimento deu-se a conhecer a vizinhança vegetal que habita as Parretas, partilhou-se os seus nomes científicos e botânicos, os seus usos culinários e terapêuticos, as histórias com elas relacionadas e a sua importância na manutenção da biodiversidade.
SINOPSE dA CURTA-METRAGEM
À medida que a edificação cresce em altura, distancia-nos do chão e do contacto com o ambiente vegetal. Pequenos Paraísos é uma curta-metragem que investiga as varandas convertidas em jardins da Urbanização das Parretas, enquanto atos de resistência silenciosa à dureza do betão e à homogeneização do espaço urbano. A varanda, como estrutura-fronteira entre a casa (o privado) e a rua (o público), configura-se como um lugar paradoxal de segurança e liberdade, onde se está simultaneamente no interior e no exterior.
Através do formato vídeo, o projeto analisa as dinâmicas de cuidado entre os moradores e as suas plantas, questionando de que forma a prática do cultivo (de flores, arbustos, cactos ou aromáticas) reconfigura áreas padronizadas em espaços significativos de expressão pessoal. Esta transformação evidencia não só necessidades instintivas de ligação à natureza —relacionadas com os diversos significados que a cor verde evoca: abrigo, alimento, bem-estar, sobrevivência—, mas também estratégias individuais de adaptação ao contexto urbano contemporâneo.
"Pequenos Paraísos", 2025.
Vídeo 4K, som, 36’34’’
Urbanização das Parretas, Braga
TEXTO AUTORAL PARA A PUBLICAÇÃO
À medida que a edificação cresce em altura, distancia-nos do chão e do contacto com o ambiente vegetal. Pequenos Paraísos é uma curta-metragem que investiga as varandas convertidas em jardins da Urbanização das Parretas, enquanto atos de resistência silenciosa à dureza do betão e à homogeneização do espaço urbano.
A varanda é, por excelência, um espaço de transição — entre o íntimo e o coletivo, o privado e o público. Nas Parretas, os moradores reinventam esse limiar: nas superfícies limitadas das suas varandas cultivam plantas (flores, cactos, aromáticas, trepadeiras e arbustos) que transformam o concreto em ecossistema. Esse gesto, aparentemente banal, é profundamente político. Num contexto de arquitetura padronizada, onde a repetição construtiva tende a apagar a diferença, cada varanda-jardim torna-se uma afirmação de identidade, de expressão pessoal e autonomia sobre o espaço habitado.
Mas há também, nesse ato de plantar, um vínculo biológico: no meio do betão e da altura, as varandas floridas funcionam como estratégia para acalmar instintos evolutivos profundos. A nossa atração pelo verde está enraizada na história humana, já que esta cor representa a existência de água, alimento e abrigo, essenciais à sobrevivência. No plano psicológico e terapêutico, está amplamente demonstrado que o contacto com ambientes naturais ativa respostas biológicas e emocionais profundas: reduz os níveis de cortisol, a hormona responsável pelos stress, melhora o humor, a atenção e a criatividade, oferecendo uma sensação de segurança, mesmo que inconsciente. A proximidade ao verde devolve ao corpo uma sensação de continuidade com o mundo vivo. Entre as folhas e as raízes dos vasos, reata-se uma relação há muito interrompida pelo ritmo urbano.
Pequenos Paraísos propõe ainda reconhecer a existência, na varanda, de uma ecologia sensível entre o humano e o mais-que-humano. As plantas não são apenas ornamento: têm presença, exigem cuidado, respondem à luz, à água, ao toque. Essa reciprocidade cria laços de responsabilidade e afeto que atravessam a escala doméstica. No contexto das Parretas, observar essa convivência foi compreender uma vizinhança expandida: uma comunidade que inclui não apenas pessoas, mas também seres vegetais que participam na vida coletiva.
Formalmente, Pequenos Paraísos materializou-se numa curta-metragem. Escolhemos o vídeo não só por ser uma linguagem universal e democrática, acessível a vários públicos (estávamos particularmente interessados em criar um objeto no qual os moradores das Parretas se revissem), mas também por ser um suporte capaz de perdurar no tempo.
A tipologia de gravação é deliberadamente informal: seguimos os autores dos jardins com espontaneidade, revelando os seus gestos quotidianos e evitando interferir nas suas falas — a escuta, neste contexto, é também um gesto de respeito. Os slides verdes fluorescentes com texto, que se sobrepõem à imagem, funcionam como destaques poéticos: pequenas sentenças ou “oráculos” que sublinham frases que merecem ser respiradas. A montagem é dinâmica, alternando ritmo e quietude, e a escolha sonora adiciona um layer de graciosidade, quase táctil, marcando o tom específico de cada jardim.
Os quatro casos de estudo selecionados — A Marquise do Éden, A Varanda da Saudade, O Jardim Viajado e o Canteiro Proibido —, representam diferentes tipologias de jardim e relações de cuidado com o verde. Cada uma destas histórias revela uma forma singular de resistência, um modo de reinventar a arquitetura em altura através do gesto íntimo de cultivar.
A projeção noturna sobre a estrutura do arquiteto Nuno Melo Sousa amplificou a experiência: o metal frio converteu-se em superfície viva, a escadaria de betão em anfiteatro ao ar livre, e o gesto artístico em ponto de encontro.
Nas Parretas, o nosso papel enquanto artistas foi o de mediadores. Mais do que intervir, procuramos sistematizar o fluxo de histórias, gestos e dinâmicas que emergiram da comunidade. A poética nasceu da escuta atenta, da convivência e da observação, das ações quotidianas recolhidas em vídeo e em som. A comunidade entregou-nos a matéria viva mas fragmentada; a nós coube cruzar, editar e fundir, até que, desse emaranhado de experiências, emergisse uma narrativa visual capaz de transformar pequenas ações individuais em expressão coletiva.
Talvez resida aqui o sentido mais profundo do trabalho artístico em contextos comunitários: organizar dinâmicas latentes, cruzá-las com a sua própria subjetividade, e devolver algo estruturado que permita às pessoas reconhecerem-se — a si próprias, aos seus vizinhos, à sua história partilhada. Assim aconteceu no Bairro das Parretas. Percebemos a energia dos moradores que, mesmo sem varanda ou terra para plantar, insistem em criar vida nos interstícios da arquitetura. É uma energia teimosa que resiste à norma, à burocracia camarária e até à rigidez de alguns jardineiros municipais, tantas vezes impossibilitados de conciliar a sua função técnica com os afetos da comunidade.
Esta experiência confirmou-nos que, em processos participativos, por vezes, basta escutar. Escutar profundamente as necessidades e desejos que habitam um lugar, as forças invisíveis que o sustentam. Pequenos Paraísos é, nesse sentido, uma tentativa de dar visibilidade a essas micro-práticas quotidianas de cuidado e resistência, reconhecendo nelas o potencial de transformação do espaço urbano.