Uma residência artística na Madeira e uma exposição "transumante" sobre as linguagens do monte.

Tipologia do Projeto
#artístico #residência artística
categoriaS
#exposição #vídeo #som #investigação #território
CURADORIA e Organização
Hélder Folgado, Câmara Municipal do Funchal
local
Museu Henrique e Francisco Franco e Capela da Boa Viagem
DURAÇÃO
21 de outubro de 2024 — 30 de janeiro de 2025
EQUIPA
Alexandre Delmar e Maria Ruivo
APOIO
Rede Portuguesa de Arte Contemporânea (RPAC) da DGartes
PARCERIA
Coleção Fundação Bienal de Arte de Cerveira
AGRADECIMENTOS
Hélder Folgado, José Manuel Gomes, João Abel Escórcio, Ricardo Forte, José Feliciano Baptista, André Vieira, José Manica, Francisco Pargo, Xavier Castro, António Paixão, José Carlos Marques, Sílvia Silva, Rui Camacho, José Camacho, Tomás Camacho, Teresa Camacho, D. Benvinda, Sandra Cardoso e Rui Dantas (A Biqueira), Sr. Heliodoro, Irina Andrusko (Enfia o Barrete), Museu de História Natural, Sónia Marques (Tratuário).
Contexto do projeto
A exposição Dois Tons de Cinza nasce da residência artística realizada na Madeira, por Alexandre Delmar em colaboração com A Recoletora, em Agosto de 2024, no âmbito do projeto ‘Semeadores’ [1] . Neste território, continuaram a sua investigação e criação em torno das estratégias e das dinâmicas pastoris — relacionadas com o rebanho, a comunicação, a orientação, a propriedade, a caminhada, a alimentação e o mito — que resistem ao tempo e que continuam a marcar a paisagem e o quotidiano da ilha.
No Funchal, a exposição dividiu-se entre dois espaços expositivos e esteve patente de 21 de outubro de 2024 a 30 de janeiro de 2025. O primeiro espaço, o Museu Henrique e Francisco Franco, expôs algumas peças de Alexandre Delmar realizadas na aldeia de Lagoa, em Trás-os-Montes, entre os anos de 2015 e 2019, bem como novas peças produzidas em relação com o espólio do museu. Já o segundo espaço, a Capela da Boa Viagem, apresentou as obras resultantes do trabalho dos autores feito durante a residência artística.
Após a exposição no Funchal, Dois Tons de Cinza inicia o seu processo de "transumância", apresentando-se no Museu do Côa de 14 a 30 de Março de 2025 e no Mira Artes Performativas, no Porto, em Janeiro de 2026.
A curta metragem "Dois tons de cinza", que dá nome à exposição, que celebra, a partir da região da Madeira, uma noção de ‘Monte’ expandida que vai além do espaço geográfico, para o de um lugar relacional.
Misturando o documental e a ficção, a narrativa explora, em paralelo, a história do povoamento da ilha e o contexto pastoril local, atendendo à verticalidade deste território e às dinâmicas de interdependência entre as diferentes comunidades de animais, minerais, humanos e plantas, aos seus códigos de comunicação e linguagens.
A névoa e o fumo, enquanto estados turvos, abstractos e cinzentos, ajudam a construir o mito como lugar de recuperação, onde as fronteiras entre natureza e cultura diluem-se — o pastor fala com (e como) as ovelhas; o grito tem a orografia da ilha, feita de ecos e reverberações; o homem tem inveja dos pássaros; a traqueia deforma-se como cascas de árvores; o cão torna-se “danado” como um lobo insular; as pedras basálticas contam a história do fogo; os sinais das orelhas treinam-se em folhas de louro; o pastor tem pés de cabras; as plantas crescem de memória.
[1] ‘Semeadores’ é um projecto da Câmara Municipal do Funchal, coordenado pelo Museu Henrique e Francisco Franco e pela Capela da Boa Viagem, com o Programa de Apoio da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea (RPAC) da DGArtes. A exposição “Dois tons de cinza” insere-se nas linhas orientadoras do Eixo Interespécies, que se propõe explorar e questionar os fluxos entre os espaços rurais e urbanos, analisando as especificidades da paisagem e as relações entre as espécies animais e vegetais, estabelecendo simultaneamente uma ligação com a etnografia, a paisagem, a história e a cultura do arquipélago.
"Dois tons de cinza", 2024.
Vídeo 4K, som, 17’47’’
Madeira
"Oração às Orelhas", 2024.
Vídeo 4K, som, 7’03’’ (loop).
Com base no livro de Registos de Sinais do Grémio dos Pastores do Concelho do Funchal.
"A Fala das Cabras e dos Pastores — da Madeira", 2024.
Vídeo 4K, som. 3’ 55’’ (loop)
Serras de Santo António e Serras do Poiso, Madeira.
Em colaboração com os pastores José Manuel Gomes, João Abel Escórcio, Ricardo Forte, José Feliciano Baptista, André Vieira
texto da folha de sala
DOIS TONS DE CINZA APENAS UM
... as marés colossais que sobem vales
Na montanha, a linguagem não começa nem acaba nos homens, nem nas palavras. Pode valer entre pastores, entre eles e os rebanhos, até entre a neblina e as encumeadas que dela se cobrem. E podem valer o chão e o que está em volta, a vegetação rasteira, as árvores ramificando por entre a névoa, as cores do céu, e as da terra, as folhas verde-escuras do loureiro e do til, e nelas as gotículas que resistem à queda, água que o monte acolhe por raízes que entram terra dentro, partes de um léxico tão concreto que faz pouca diferença entre palavras e coisas, que tanto se diz pelos sons que uma boca consegue projectar como pelas pedras que uma mão calejada consegue lançar.
Na montanha, a linguagem é paisagem. Liga o céu baixo e a terra alta num mundo comum. E tem orografia. Chama com ecos, assobia nos vales, vozeios e estalidos que cabras e ovelhas escutam reflectidos pelas escarpas.
É a linguagem do grito e do eco
Esta é uma linguagem que envolve além do humano e se envolve com o animal, o vegetal, o mineral. Há uma familiaridade na montanha, todas as partes se reconhecem, falam e ajeitam-se na neblina que lhe corre diariamente pelas costas. Sendo a mais geológica das linguagens, a da montanha é a menos antropocêntrica. Em transumância por orografias que precedem todos os artifícios, o guardador de rebanhos pastoreia a mais serena e irónica contestação do Antropoceno.
Há um som no monte que pesa toneladas
E na montanha, a linguagem tem corpo. Os nomes, os chamamentos e afastamentos fazem um vocabulário que é geografia articulada pelo corpo, a mão podia dizer como uma boca, e a boca é tão músculo e osso como as mãos em movimento, gestos que trazem a linguagem de volta às coisas, linguagem das coisas, mesmo a humana, devolvida assim ao chão.
Nela, nomes são como pedras pouco polidas a que os pastores se agarram para escalar uma orografia, territórios que são vontade de mapa, lugares e caminhos que se automanifestam a quem os percorre.
Ali não se caminha, apenas se sobe e se desce
E as pedras afeiçoadas ao pisar do pastor e às suas mãos são íntimas como as palavras ligadas em vozes que nos habitam. A passagem pelas coisas da montanha afeiçoa os seres, os corpos das cabras com a matiz das rochas e as formas do relevo. É o trabalho da evolução ou uma metáfora vivida antes mesmo de ser pensada.
Como a traqueia do pastor se foi deformando, criando ranhuras, nodosidades e côdeas, como uma casca de árvore.
Um ser não acaba enquanto se alongar assim por entre estes afeiçoamentos que traz num corpo continuado pelo pastor, a montanha toda e também pelas cabras que
aprenderem a beber o nevoeiro salino das pedras e dos líquenes.
As palavras abstractas tentam, como se fossem expedicionárias, fazer sentido do que precede a abstracção. Timothy Morton, filósofo nosso contemporâneo, diz mesh para indicar como uma malha entretece seres vivos, matéria orgânica e habitats. O filósofo Tetsuro Watsuji dizia aidagara para indicar o entre as coisas, os lugares e os seres. Estes entre, sendo palavras abstractas, resistem à abstracção, e assim, no limite do paradoxo, sugerem não nos iludirmos sobre o nosso estar na linguagem e no mundo.
Deixadas no sopé, as abstracções deixam à montanha a história que as precede, o mito que lhe persiste nas pedras basálticas. Houve um incêndio primevo, conta o mito sobre o que fizeram os primeiros habitantes da Madeira. A sua chegada transformou o ser da montanha e
parece que os pássaros, de tanto gritar, mudaram para sempre o seu canto.
Uma persistência através dos séculos parece ter ficado na névoa. Dois tons de cinza, o da névoa e o do fumo, nota Alexandre Delmar, uma cumplicidade que lhes ficou desde a raiz. Cinza, a cor, e a cinza queimada provêm ambas do latim cinis, também raiz de palavras como incinerar. A névoa traz cinzas dentro, afinal, o mesmo tom dentro. E na Madeira, além da água lambida pelas folhas de loureiro, a névoa traz a memória de cinzas tão férteis que
as plantas cresciam de memória.
Importa aos mitos que subsista uma névoa onde nos podemos perder e reencontrar. As palavras comunicam com o seu passado. As pedras prometem dar-nos passagem se as ouvirmos. Uma história precede a própria história dos homens. Há um antes dos incêndios com que habitamos o mundo.
O hábito na linguagem é também uma linguagem. O tempo da repetição e da memorização ensina a fazer, verifica o feito, treina o linguajar, familiariza um vocabulário como se cada uma daquelas palavras fosse coisa do dia a dia mais à mão, palavras-peças que reconhecemos pelo toque, como as pedras amuleto que trazemos no bolso.
Uma lengalenga quase canta a descrição do corte das orelhas de um rebanho, de cada par de orelhas, considerando ambas e não uma e outra orelha separadamente, relato do que lhes foi feito, ou do que lhes será feito, com a minúcia da mestria. Um vocabulário da segmentação também ele segmentado com precisão, a linguagem em palavras a fazer-se imagem que recapitula e convoca a linguagem silenciosa do visível naqueles pares de orelha. Tem qualquer coisa da sabedoria da oração, a chegar antes e depois dos acontecimentos que pastores praticam em folhas de louro. E rezam assim as suas possibilidades de conjugação:
inteira, troncha, de escada, guiada, de forca, aguce, de ramal, rachada, com um ou mais buracos, mossas, farpas, cortada ou não, fendida ou não, com barbas de anzol, picos, e pela frente (ou por diante), por trás, por cada lado.
Com o tempo, conseguimos dominar o vocabulário e as regras de composição de frases, por exemplo, troncha, com pico e duas mossas uma por cada lado. E, então, praticando, ser parte do que se pratica.
Com o tempo conseguimos acompanhar a oração, fazê-la ressoar em nós, quase cantada, palavras de montanha, pedras de que conhecemos o sabor. A oração é uma participação, mesmo que a sós, uma companhia por inteiro. É um dizer que, sobretudo, escuta. Nisto, a folha, a orelha, o animal e a montanha estão de acordo.
E contudo, a descrição não era lengalenga nem oração até se ter tornado nelas através de um fazer artístico que trouxe de volta o conhecimento ao conhecido. Trazer a razão de volta ao mito, sem perder nenhum. Ainda que falsa, Santo Isidoro de Sevilha propunha uma bela etimologia para oratio, a palavra latina para oração – oris ratio, a razão que vem à boca. Pode ser a boca de um pastor com as suas ovelhas, ou a de um investigador que nos traz de volta às linguagens do monte.
Esta é a fala das pedras basálticas e do fogo. O seu léxico é feito de destroços e restos.
Uma falsa etimologia por via erudita, uma oração às orelhas, dois cinzas afinal apenas um, trazem-nos de volta. Não é saudade de encantamento. É uma salvação.
Texto por André Barata
NOTA: Em itálico, usa-se da citação para fazer eco das frases dos vídeos “Dois tons de cinza” e “Oração às orelhas”.